Site de Marcio Aurelio Soares, médico clínico, especialista em medicina do trabalho e saúde pública. Casado, pai de três filhos, autor de três livros. Esse é um espaço de debate sobre Política, Saúde, Medicina, Esportes, Cidade de Santos, Cotidiano, Alimentação, Livros e Reciclagem.
Os filhos estão indo embora
Em tempos de pré-sal e proliferação de arranha céus luxuosos, a política habitacional implementada em Santos, na última década, impediu a fixação de nossa juventude na cidade, ao contrario do que se poderia imaginar.
Neste processo, existem algumas incoerências a serem tratadas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que no período de 2000 a 2010, a população de Santos teve acréscimo, somente, de 1.417 habitantes. Significa aumento populacional de 0,4%, bem abaixo da média nacional (12,5%) e estadual (11,6%). No entanto, o Banco de Dados do SUS (DATASUS) indica o nascimento de 54.264 pessoas na cidade, contra 39.150 óbitos no período. Em um cálculo simples, caracteriza-se aumento populacional de 15.114 habitantes.
Então, para onde foram os cidadãos que nascem santistas, mas que aqui não ficam?
O crescimento vegetativo, a diferença entre nascimentos e mortes, foi compensado pelo saldo migratório, como bem ensina o professor Daniel Vasquez, organizador do livro “A questão urbana na Baixada Santista”. A obra esmiúça informações demográficas e demonstra a estagnação populacional em Santos. A hipótese apresentada é que ocorreu fluxo migratório na Baixada Santista, com os cidadãos rumando em direção à Capital ou outras regiões do Estado.
Na década de 90, a justificativa para o êxodo da população santista era a diminuição da oferta de empregos no Porto e, também, no Polo Industrial de Cubatão. Passados vinte anos, a situação é outra! Apesar da perspectiva de crescimento econômico, o mercado imobiliário e as políticas públicas acabam por expulsar a juventude da cidade, especialmente os jovens com menor poder aquisitivo.
Desde o início do chamado boom imobiliário, 80% dos novos empreendimentos foram construídos nas áreas mais nobres da cidade. Somente 6% de novas construções ergueram-se na Zona Noroeste e nos Morros. Estes dados apontam a permissão de acesso aos novos apartamentos apenas às famílias de alto padrão econômico. Este perfil de crescimento obriga famílias menos abastadas financeiramente a procurar áreas menos valorizadas, empurrando os que ocupavam as regiões intermediárias para imóveis ainda mais distantes, fora dos limites da cidade quase sempre. Assim, explica-se o grande crescimento populacional nas demais cidades da Baixada Santista.
A lógica do mercado imobiliário é o lucro. Com isso, o Plano Diretor do Município precisa ser reavaliado com extrema urgência. Por meio de coeficientes de aproveitamento por tipo de imóvel e região. Pode-se incentivar, por exemplo, a construção de moradias de padrão médio e popular, atendendo as necessidades da população, cujos rendimentos médios são de R$ 1.715,00 por pessoa. Cabe, portanto, à classe política fazer as escolhas certas.
O quinto dos infernos de novo!
A chegada de Pedro Alvares Cabral ao litoral brasileiro, em abril de 1500, representou para Portugal grande feito, em relação às disputas com a Espanha entorno dos territórios descobertos no Novo Mundo. No período inicial, portugueses dedicaram-se ao extrativismo do pau-brasil, valiosa madeira cuja tinta vermelha era comercializada na Europa. Tempos depois, veio o Ciclo do Ouro, com a descoberta de grandes jazidas do precioso metal nas Minas Gerais.
Para defender os interesses econômicos, a Coroa portuguesa instaurou imposto sobre a extração do ouro. A cobrança era de 1/5 de todo o minério extraído em terras brasileiras, ficando a taxa de 20% chamada de “quinto”. Tal como nos dias de hoje, a população esbravejava contra essas iniciativas, eternizando a expressão “quinto dos infernos”.
Daqui, os portugueses extraíram madeira, cana de açúcar, café, algodão, ouro e inúmeras outras riquezas, porém não ficaram ricos. Utilizaram os recursos para pagar bugigangas adquiridas na Inglaterra e garantir proteção militar. Portanto, uma relação nem um pouco alvissareira. A história é importante para que não cometamos os mesmos erros do passado. O aprendizado nos demonstra como podemos construir um futuro mais seguro.
Vivemos a expectativa de um novo ciclo de exploração de riquezas naturais. As bacias de petróleo e gás do pré-sal são promissoras e poderiam servir de impulso à construção de uma nova nação. Pena que a Câmara dos Deputados não pense desta forma. Ao invés de canalizar os vultosos recursos para áreas como educação, optaram pela decisão de pulverizá-lo. Caem, assim, no mesmo erro dos países árabes. Poderiam seguir o belo exemplo da Noruega, que utilizou a riqueza na valorização das pessoas e investiu no conhecimento.
Ao tomar esta decisão, nossos representantes optam pelas obras faraônicas, em detrimento do saber. Agem como colonizadores da idade moderna, que sugam nossas riquezas, nos empobrecem e nos privam do desenvolvimento. Resta-nos esbravejar com os deputados, evocando a prática dos nossos antepassados de mandar tudo para o quinto dos infernos.
Etiqueta, higiene e legislação
Etiqueta é a norma de comportamento social que atravessam gerações. Estes atos muitas vezes são motivo de chacota pela classe média urbana brasileira, talvez pelo fato dessa preocupação datar do século XVII, entre aqueles que frequentavam a corte francesa. Portanto, é comum às pessoas relacionarem-na com “frescura”, em função de alguns exageros cometidos, principalmente, por pessoas que incorporam uma expectativa de classe maior do que realmente seus contracheques o suportariam.
Existem normas que somos obrigados a cumprir, para sermos aceitos por um determinado grupo, independente da classe social a qual possamos pertencer. Skatista ou roqueiro, médico ou advogado, classe A, B ou C, não importa, deve-se acompanhar determinados cerimoniais, rituais e regras de comportamento. As regras mudam com o passar do tempo. O tolerado socialmente em determinada época, não será aceito em outra.
Lembro-me quando éramos obrigados a pedir benção aos nossos pais e avós, mesmo que não entendêssemos o significado daquilo. Era exigência que meu avô, português, não abria mão. Ao contrário, oferecia sua mão para o beijo e o pedido de “benção, Vô”. Hoje, na iminência de me tornar avô, jamais pensaria em agir como tal.
E palitar os dentes à mesa, após as refeições? Recordo de uma tia, rica, que deixava o paliteiro de prata sobre a mesa. Chiquérrimo! Os mais refinados ainda colocavam uma mão sobre a outra, de modo que escondesse sua intenção. Que coisa horrível. Deselegante! É o que diríamos hoje diante de uma situação destas. Quem não se lembra daquela modelo com o rosto estampado na embalagem da marca Gina de “palitos roliços de madeira”. Há pouco tempo, um desses programas de escracho, que se intitulam humorísticos, descobriram o endereço da moça, hoje uma anciã. Fizeram de tudo para entrevistá-la, mas ela se negou, peremptoriamente. Talvez porque não desejasse ver sua imagem associada a hábitos hoje tão desaprovados.
Porém, a história não parece ser muito bem essa, não! Ao menos para os vereadores de nossa Câmara Municipal que promulgaram lei exigindo que os palitos sejam embalados individualmente.
Além do aspecto cerimonial, palitar os dentes é resquício de práticas comuns entre os nossos antepassados, o que se explica pela ausência, à época, de fio dental, escovas de dente, dentifrícios e profissionais especializados no tratamento bucal. Dentistas reprovam tal prática por facilitar a entrada de bactérias e fungos na gengiva podendo causar ou agravar infecções, além de ferir a gengiva e causar gengivite.
Estou fazendo uma pequena enquete no Facebook. Quero saber se alguém palita os dentes em público. Até agora todos os que se manifestaram não praticam essa flagelação. Então, concluímos, facilmente, que atualmente é considerado feio e deselegante palitar os dentes, costume desaprovado pelos dentistas.
Será que nossos vereadores palitam os dentes à mesa após as refeições?!
Argh... Que desagradável!
Santos de Rosa
Durante todo
o mês de outubro, vimos a cidade vestida de cor de rosa. Desde a Fortaleza da
Barra até a Pinacoteca Benedito Calixto. Tal iniciativa teve como objetivo
chamar a atenção das mulheres para a necessidade de realizarem o exame de
mamografia como medida eficaz para a prevenção do câncer de mama.
O movimento
“Outubro Rosa” teve início em Nova Iorque, nos Estados Unidos, em 1990. Depois,
outubro se tornou o mês de prevenção do câncer de mama, em todo o território norte
americano.
Pelas nossas
bandas, o movimento vem se tornando mais popular a cada ano. Testemunhamos
várias manifestações por toda a cidade, destacando-se uma caminhada na Avenida
da Praia, com a participação de centenas de pessoas, especialmente mulheres.
O Brasil é
um dos países com a maior participação de trabalho voluntário no terceiro
setor, as assim chamadas Organizações Não Governamentais – ONGs. São milhares
destas instituições espalhadas por todo o território nacional, abarcando
milhões de voluntários. As entidades visam ocupar espaço de colaboração com o
poder público, o primeiro setor, que deveria tê-las como aliadas em suas ações.
Porém, nem sempre é isso o que
acontece. O Governo do Estado de São Paulo realiza a Semana da Saúde da Mulher
no mês de março! Pasmem! Da mesma forma, não foram realizadas ações da
Secretaria de Saúde Municipal, contemplando a manifestação rosa contra o câncer
de mama. Vi um ônibus do Hospital de Barretos, trazido pelo ONG Orienta Vida,
equipado com mamógrafo, subutilizado na Zona Noroeste. Com programação ajustada
para ficar na cidade por 30 dias realizando mamografias, fez, por falta de
pacientes, apenas 13 exames em três dias. Resultado: foi embora da cidade.
Será que
essas ações estão sendo voltadas para o público correto? A melhor estratégia
seria levar a passeata da praia para os cantinhos mais pobres da cidade, onde a
miséria esta instalada? Tenho a impressão que prevenção de doença, manutenção e
recuperação da saúde estão estreitamente ligadas à educação.
Não existem
bons índices de saúde em uma população sem informação e cultura. Informação,
neste caso, significa a transferência de conhecimento científico com o objetivo
de criar, entre os cidadãos, a cultura de prevenção.
Coordenando
ações, o poder público em parceria com as ONGs e, porque não, com a iniciativa
privada, poderão prever as ações de combate ao câncer de mama fazendo
diagnósticos das necessidades. É de suma importância aferir o impacto dessas
medidas e manter a oferta do exame de mamografia durante ano todo, dentro da
perspectiva de direito da mulher em cuidar da saúde.
Mal
de Alzheimer, uma doença e outras histórias
Por
Marcio Aurelio Soares *
O
Alzheimer é uma doença crônica, progressiva e letal, descrita, a
primeira vez, pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer. Inicia-se com
perda da memória, confusão mental, irritabilidade e agressividade,
até que evolui, em sua fase terminal, para a incapacidade total de
desempenhar as mais simples tarefas, mantendo os pacientes acamados
até a morte, o que, em geral, acontece de 8 a 10 anos depois de seu
diagnóstico. Calcula-se que no Brasil existam cerca de 1 milhão de
doentes diagnosticados.
Por
seu caráter demencial, é uma doença que atinge e exige o
compromisso da família, diretamente, envolvida com o doente. Este,
com a progressiva deterioração das funções cerebrais, perde o
contato com a realidade que o cerca, desenvolvem confusão mental,
apresentando, em alguns casos, comprometimento importante da
cognição, ou seja, com perda da consciência de si próprio e dos
outros.
Com
a progressão da doença, aumentam, também, as dificuldades para os
familiares envolvidos nos cuidados de um doente que mantem um
relacionamento indiferente, agride, não os reconhece e não valoriza
seus esforços. Para tanto, esses cuidadores devem estar preparados,
física e psicologicamente, para lidar com esta situação demencial.
Seu
tratamento ainda é paliativo pois não temos, até o momento, sua
cura definitiva. Inúmeros estudos são realizados, em todo o mundo,
a procura dos mecanismos causadores da doença e de sua cura. Há 10
anos, Henry Engler, médico neurologista uruguaio, conseguiu, após
anos de pesquisa, detectar no cérebro a proteína amilóide que
destrói os neurônios e causa a deterioração da memória. Tal
descoberta é considerada o trabalho mais importante no estudo da
doença depois que Alzheimer a descreveu em 1906, tendo sido indicado
ao Premio Nobel de Medicina em 2008.
Engler
desenvolveu
suas pesquisas
na Universidade de Uppsala, na Suécia, onde se formou em medicina,
após ter ficado preso por 13 longos anos, 11 deles em isolamento
completo, onde foi submetido a tortura física. Militante do
grupo guerrilheiro Tupamaro, organização clandestina de esquerda
que atuou no Uruguai de 1960 a 1970, do qual foi um dos principais
líderes, foi responsabilizado pela organização de assaltos e
sequestros, sendo um dos acusados pela morte de Dan Anthony Mitrioni,
oficial da CIA dos EUA relatado como responsável pela formação de
centenas de oficiais militares e policiais em técnicas de tortura.
Em
recente entrevista à imprensa, Engler, afirmou: “ Na luta para
superar a si mesmo, perdem-se os pensamentos de ódio e rancor e a
solidariedade se transforma em uma forma de satisfação permanente.
Creio que também se pode sobreviver pelo ódio, mas assim não se
pode encontrar a felicidade...Hoje somos loucos, mas loucos de
sonho”.
Que
assim seja.
*
Médico sanitarista
Ah,
se minha mãe soubesse disso!
Volta
e meia falo de minha mãe. É porque mãe é mãe mesmo, não tem
jeito; está sempre
dentro
do nosso universo psíquico.
- Rita, ou Ritinha para os mais próximos, nome este do qual sempre se orgulhou, pois, era o mesmo nome de sua avó, quem a criou, é o que eu posso de chamar de “grande figura”, e que figura! Alegre, radiante...curiosa! Certa vez, andando pela calçada em Copacabana, percebendo um pequeno aglomerado de pessoas entorno de porta de um ônibus de turismo, não se conteve, de tanta curiosidade. Aproximou-se e perguntou na primeira oportunidade, “o que foi hein?”. “Nada não”, responderam. “Só estamos esperando pra entrar no ônibus”. Nenhuma surpresa, afinal, estavam na porta de um hotel! Esse fato ocorreu há muitos anos, e, até hoje faz parte do folclore familiar.
Dizem
que D. Rita é um personagem tirado do gibi! (na foto, à direita, com meu irmão no "Bloco da Bengala", durante o último carnaval, em São Lourenço/MG)
Por
isso, minha infância foi das melhores do mundo. Isso não significa
ausência de autoridade.
Esposa
de militar, minha mãe sabia muito bem agir como coronel. Os horários
deviam ser cumpridos regiamente. Hora para dormir, levantar cedo e ir
à escola.Televisão ligada à noite, depois do jantar. ..bastava a
propaganda comercial tocar aquela musiquinha irritante e traumática:
“tá na hora de dormir, não espere mamãe mandar, um bom sono pra
você e um alegre despertar”. Lá íamos nós, eu e meu irmão,
direto para o “berço”. Conversa de adulto então, nem se fala.
Se chegássemos perto, bastava um olhar e já mudávamos a rota.
Hoje
acompanho o debate entre pais e educadores na imprensa e, confesso,
fico meio constrangido. Os pais se sentem na obrigação de serem
amigos dos filhos, porém os educadores afirmam que estes devem impor
limites.A escola, no meio de tudo isso, recebe a transferência da
obrigação de disciplinar e de ensinar preceitos básicos de
hierarquia. Os médicos, por sua vez, já descobriram uma fórmula:
criança amiga de pais sem autoridade, não são mal educadas, são
hiperativas e devem tomar Ritalina!
Quanta
ironia, Dona Rita.
No
próximo Congresso de Pedagogia vou propor uma palestra da D. Rita,
cuja apresentação poderá ser “D. Rita, mãe do médico Marcio
Aurelio, proferirá a palestra: Como ser uma mãe do Gibi e educar
seus filhos!
Marcio Aurelio Soares
Revisão Jornalista Fernando Ribeiro
Marcio Aurelio Soares
Revisão Jornalista Fernando Ribeiro
O Crescimento (das favelas) de Santos
A cidade de Santos registra crescimento no número de pessoas
que vivem em favelas. Entre 2001 e 2010, a quantidade de moradias precárias
aumentou em 79,5%. Os dados são alarmantes. Basta considerar o crescimento
populacional na cidade, estagnado desde a década de 80. Hoje são mais de 10 mil
residências em condições de habitação impróprias.
As informações, publicadas na edição de ontem de A Tribuna,
mostram um triste cenário da cidade de Santos. Diante desta realidade, cabe propor
alguns temas para reflexão:
Com tantos empreendimentos imobiliários, especialmente na
região nobre da cidade, onde estão essas pessoas? O questionamento se faz
necessário, pois são entregues centenas de novos apartamentos. Por quem são
ocupados? De onde vieram?
Com o número de habitantes é estável há décadas, porque
aumenta o número de pessoas vivendo nestas condições? Por que surgiram estes
núcleos e, mais uma vez, de onde vieram essas pessoas? Resultado do
empobrecimento da cidade?
Ouve-se, em alguns discursos, que a cidade está crescendo.
Que o Pré-Sal e a Petrobrás mudariam a cara da cidade, em franca expansão. Se
não é pelo número de habitantes e, também, não é pela riqueza de seus
moradores, a cidade estaria crescendo sob qual aspecto?
As repostas para todas essas questões estão no estudo do
fluxo migratório. É preciso perceber que o crescimento vegetativo é inferior ao
movimento imigratório, que, por sua vez, é menor que a emigração de pessoas da
cidade. Saem por falta de emprego, saem pelo alto custo de vida da cidade.
A classe média foge, enquanto a classe de operários sem
qualificação chega, oriundas de outras cidades, para responder à demanda de mão
de obra na indústria da construção civil.
O governo municipal passou quase 10 anos assistindo ao
crescimento da indústria imobiliária e a favelização da cidade. Com o aumento
da criminalidade, pede-se mais policiamento nas ruas!
Discutir o Código de
Uso e Ocupação do Solo é uma tarefa que se impõe ao novo Prefeito. A discussão
é técnica, com certeza, mas deve ser a mais democrática possível, com
participação do Conselho Municipal da Habitação.
Que fique claro: não se trata de debate partidário, pois não
são números provenientes de uma estatística vazia. Trata-se, sim, das causas da
piora os índices sociais do município.
A concentração de famílias em locais com precária
infraestrutura traz sérios danos à saúde. Santos tem uma das piores taxas de
mortalidade infantil do Estado de São Paulo. São treze crianças mortas entre
1000 nascidas vivas, antes de completar o primeiro ano de idade.
A criminalidade também cresce e os moradores sentem, dia
após dia, seus reflexos. Sob o ponto de vista humano, só quem conhece essas
comunidades sabe das condições difíceis que vivem. Convivem com o esgoto, com o
madeirite mofado, com o frio.
A cidade vive tempos de desafio. A miséria cresce e se
aprofunda. O tapete, infelizmente, transbordou.
Hoje é meu
dia
Por
volta de nove anos de idade, a professora Marli, chamada antes de “dona” – e
não tia, como hoje em dia - solicitou que escrevêssemos uma redação sobre o que
desejaríamos ser quando crescêssemos. Aliás, um tema não tão recorrente nos dias
de hoje, mas que era muito comum à época. Bastava mãe ou pai apresentar a
criança para um amigo, e lá vinha a pergunta: o que você vai ser quando
crescer?. Uns logo respondiam, com orgulho, que seriam bombeiros, outros seriam
policiais. Enfim...
A
pergunta se torna irrelevante, pois quero escrever é sobre minha resposta. Ao
ser questionado na infância, escrevi: quando crescer, quero ser médico! Minha
mãe, Dona Rita, de tão orgulhosa do filho, guardou a redação por longos e
longos tempos. Sempre que a ocasião permitia, lá vinha com o tal papel amarelado.
Fato este, imediatamente lembrado quando conferimos o resultado do vestibular.
Confesso, mantive este orgulho, da carta e de minha tão tenra decisão, por
muitos e muitos anos também.
Hoje,
após décadas de ter sido submetido à marcante tarefa escolar, estou aqui,
escrevendo uma redação sobre o que eu quis ser quando crescesse e o que eu fiz
com isso. Foram mais de 200 mil horas de estudo! Sim, após 28 anos de profissão,
somados aos tantos anos de faculdade e especializações, cheguei a este número
curioso.
Agora me pergunto: valeu
a pena? Lógico que valeu, mesmo que, para isso, tivesse que usar a famosa do poeta
Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.
Com a maturidade se
consolidando e a velhice batendo à porta, nos tornamos mais reflexivos e
exigentes. Por isso, talvez, pela primeira vez faço um balanço de minha
profissão não tão positivo como antes. Hoje, os médicos usam jaleco branco e
nariz de palhaço, protestando contra os planos de saúde. Mercantilizaram o meu
sonho!
Naquela redação de
menino, não escrevi como queria ganhar dinheiro. Eu jurei, naquele pequeno
texto, por Apolo e por Asclépio, como quis Hipócrates, a “curar algumas vezes, aliviar o
sofrimento sempre que possível e a
confortar (os doentes) sempre”.
Se eu consegui? Em boa
medida, acredito que sim. A crescente demanda por assistência médica acaba por
banalizar e vulgarizar o serviço, na medida em que faz da saúde um bem a ser
comprado, e não conquistado. A “indústria da doença”, com fins de obter o
máximo de lucro possível, faz com que pessoas sintam-se seguras ao adquirirem
um plano de saúde. Passam a vender ilusão de saúde comprada e, desta forma,
estimulam o consumo de exames e consultas indiscriminadamente, mesmo que
indiretamente. Assim, a lógica passou a ser de mercado, de relação entre oferta
e procura, como qualquer comerciante, que diminui o preço do produto para ver
aumentada sua clientela.
Não,
aos nove anos, não foi essa a minha escolha. Agora, depois de 50 anos, me vejo,
assim como meus colegas, tendo que escrever uma nova redação: a de como
sobreviver diante de minha consciência boba e ingênua.
Viva
Hipócrates e seus deuses Esculápio, Apolo, Panaceya e Hygea! Chega de nariz de
palhaço!
Dona
Marli, Dona Rita, quero continuar sonhando!
E os Empreendimentos Humanos?
Os jornais noticiam que a região do Valongo, em Santos,
deverá adquirir maior status em função dos novos empreendimentos levados a
cabo naquela região, impulsionados pela
presença da Petrobrás.
Interessante notar que, durante décadas, aquela região
viveu em completo abandono e, extremamente degradada, com grande parte de seus moradores
vivendo em situação precária em cortiços.
A ocupação da cidade de Santos se
deu em função do porto. E sua colonização pelos imigrantes não aconteceu com
maior força em função de seu território estreito, seu clima, quente e úmido e
seu solo, boa parte tomado por mangue; o que justifica, em parte, a subida
destes imigrantes para o planalto. As classes mais abastadas foram se fixando
no eixo que depois se constituiu na Av Ana Costa e Conselheiro Nébias. Enquanto
que os mais pobres se fixavam entorno do cais.
Pode-se perceber que esta ocupação sempre
se deu em função da lógica da classe que dominava a economia. Incluindo aí o
saneamento proposto e realizado por Saturnino de Brito.
E, mais uma vez, esta história se repete.
Fala-se em progresso e desenvolvimento da região e esquecem-se das pessoas. E
mais, esquecem da legislação. Pois o Estatuto da Cidade é claro ao determinar,
aos novos empreendimentos, a obrigatoriedade da realização do Estudo de Impacto
Ambiental, do Estudo de Impacto de Vizinhança e a Outorga Onerosa, o que
significa dizer responsabilidade social .
E por que isso não acontece? Porque,
simplesmente, nossos Prefeitos e nossos vereadores não regulamentaram tais leis
e se omitem em relação a essas pessoas que vivem em situação precária.
A região vai se valorizar? Muito
bem. E o que vão fazer com as pessoas que moram em seu entorno?
Com a palavra o futuro Prefeito e
nova Câmara de Vereadores.
Obrigado!
Agradeço a todos por esta caminhada.
Confesso a voces que a campanha politica foi uma experiencia enriquecedora. Aprendi muito;especialmente, a compreender a angustia daqueles que tem tao pouco para sobreviver. Percebi que tenho amigos, muitos amigos, que, tal como eu, são sensíveis às causas sociais.
O meu papel como cidadão não termina aqui, ao contrario, transpusemos mais uma fase.
Ganhei muito, não o suficiente para ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores, mas ganhei. Por isso, não saio com sentimento de derrota. Saio triste, sim; mas firme no proposito de atuar como cidadão e contribuir para minimizar tanta injustiça social.
Sou fundador da ONG "Escola de Cidadão (desde 2007) e continuaremos a fazer dela nosso instrumento de trabalho social.
Portanto, amigos, mãos a obra!
Conto com voces.
Um grande abraco.
Agradeço a todos por esta caminhada.
Confesso a voces que a campanha politica foi uma experiencia enriquecedora. Aprendi muito;especialmente, a compreender a angustia daqueles que tem tao pouco para sobreviver. Percebi que tenho amigos, muitos amigos, que, tal como eu, são sensíveis às causas sociais.
O meu papel como cidadão não termina aqui, ao contrario, transpusemos mais uma fase.
Ganhei muito, não o suficiente para ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores, mas ganhei. Por isso, não saio com sentimento de derrota. Saio triste, sim; mas firme no proposito de atuar como cidadão e contribuir para minimizar tanta injustiça social.
Sou fundador da ONG "Escola de Cidadão (desde 2007) e continuaremos a fazer dela nosso instrumento de trabalho social.
Portanto, amigos, mãos a obra!
Conto com voces.
Um grande abraco.
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